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Quem vem de longe

Sinopse

De um ônibus que chega no local de apresentação, saem três mulheres e uma musicista. Entram no espaço cênico carregando sapatos, um monte de sapatos. Nesse espaço, que pode ser desenvolvido em um parque, em uma praça pública, em um espaço de convivência, as três atrizes esboçam uma cartografia do deslocamento. Com os sapatos, criam um mapa indistinto, povoado por seres deslocados da terra natal, deslocados da sociedade atual. Os sapatos significam os migrantes, os imigrantes, os andarilhos, os errantes, as ausências, as permanências, as instabilidades, os caminhos. Seres em movimento – mais ou menos esquecidos, mais ou menos acolhidos – com seus rastros, fissuras e fronteiras.

Dentre essa distribuição cartográfica, essas figuras trabalharão textos e músicas que falarão dos temas atuais dos deslocamentos humanos e apontam para uma narrativa da reflexão. Refletem sobre o preconceito, sobre as categorias estanques e, sobretudo, sobre as respostas prontas.

Para tanto, pautaram o processo de quem vem de longe na experimentação de narrativas que, já em sua estrutura poética e multifacetada, evocam a também multifacetada trajetória de quem migra… ou de quem tenta migrar… para outra terra, para outra situação ou, simplesmente, para outro desejo.

“Quem vem de longe” estreou em 07/04/18 no CEU Butantã, circulou por todas as regiões da cidade de SP, cumpriu breve temporada no Parque da Luz e Sesc Belenzinho.

Release completo

Sabíamos que o projeto Quem vem de longe teria como ponto de partida a questão do fluxo migratório recente e seus ecos e elos com as diásporas de nosso mundo. Sabíamos também que ele seria concebido para a rua e para espaços teatrais não convencionais, na esteira da história do grupo.

Em processo colaborativo, passamos a investigar quais possibilidades teatrais seriam capazes de tratar responsavelmente tal tema em tais espaços.

Uma “escritura na sala de ensaio” passou a ser esboçada a partir do encontro das propostas da direção, dramaturgia e atuação. Uma escritura que também foi afetada pelo convívio prolongado da equipe de Quem vem de longe com imigrantes e solicitantes de refúgio de dois centros de acolhimento da cidade de São Paulo.

Aos poucos, desse processo despontou uma “narrativa da conversação”, da reflexão.

Refletiríamos sobre as distâncias, sobre as diferenças, sobre o que significa “nós” e sobre o que significa “os outros”. Refletiríamos sobre as categorias estanques e, suspeitando das respostas prontas, aguçaríamos nossas perguntas.

Como não se apropriar da angústia dos outros e fazer teatro?

Como não substituir a palavra da boca do outro pela palavra da nossa boca?

Tal narrativa seguiria os padrões de uma conversa em curso, repleta de hesitações, digressões, fragmentos e fecundas idas e vindas. Não se basearia, portanto, na representação de uma história linear apoiada exclusivamente na representação de personagens com motivações psicológicas bem constituídas. A representação pura e exclusiva parecia não se adequar à articulação teatral que a “conversa” sobre o tema sugeria.

Daí, uma teatralidade da “não-representação”.

Daí também a decisão de pautar Quem vem de longe na experimentação de linhas poéticas multifacetadas que, já em sua estrutura, evocassem a também multifacetada trajetória de quem migra, ou de quem tenta migrar para outra terra, para outra situação ou simplesmente para outro desejo.

Munidas de tal poética, As Graças passaram a evocar tramas, imaginar desfechos, experimentar paradoxos.

Passaram, sobretudo, a reavivar a crença de que o teatro é um campo onde conversas merecem florescer.

E talvez seja justamente nessa crença que reside a razão, o ponto de chegada, de Quem vem de longe.

Ficha técnica

Direção: Cristiane Paoli Quito
Dramaturgia: Nereu Afonso
Direção Musical: Gustavo Kurlat
Elenco: Eliana Bolanho, Juliana Gontijo e Vera Abbud (As Graças)
Assistente de Direção: Lúcia Kakazu
Musicista: Renata Mattar
Figurino: Claudia Shapira
Cenografia: Vera Abbud e Cristiane Paoli Quito
Produção: Eliana Bolanho
Assistente Produção: Paulo Ferrer
Administração: Eneida de Souza
Realização: As Graças
Duração do espetáculo: 45min
Indicação: Livre
Projeto Contemplado pela XXIX Edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo

Crítica sobre o espetáculo

Dib Carneiro Neto

12 de maio às 12:52

Em todos os projetos em que elas se envolvem e levam adiante, o tom acaba virando o da delicadeza, da poesia e do afeto. O nome da cia. já diz muito, As Graças. São artistas sensíveis, feitas de ternura, que nos fisgam com um mero olhar, um sorriso, a voz doce. Isso, a doçura. Sempre, a doçura. Mesmo quando falam (e sempre falam) de temas muito sérios.
Como é o caso deste QUEM VEM DE LONGE, chegando ao seu último fim de semana desta temporada, no Sesc Belenzinho. Corra que é lindo. Acompanhadas do talento suave da musicista Renata Mattar (defendendo a incrível trilha composta pelo premiado Gustavo Kurlat), as atrizes Eliana Bolanho, Juliana Gontijo e Vera Abbud, doces até não mais poder, e contundentes como nunca, nos olham bem fundo e nos perguntam de onde viemos. Talvez seja a pergunta mais premente do mundo atual. A peça fala de fluxos migratórios, diásporas. Deslocamentos. A direção sempre competente de Cristiane Paoli Quito espertamente acentuou o tom de conversa, olho no olho, facilitada pela dramaturgia concisa e certeira de Nereu Afonso. Não dá pra perder. A família toda precisa vivenciar essa experiência poética de ser embalada pelas Graças. Falar de ‘pertencimento’ no mundo de hoje é urgente e fundamental. Hoje (sábado) e amanhã (domingo), às 17h, no Sesc Belenzinho. Vamos?

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